segunda-feira, 29 de julho de 2013

O que é o Relativismo Religioso na minha visão

O Relativismo Religioso é o fato de que cada religião toma para si as suas verdades como absolutas, considerando as outras religiões como pagãs, ou seja, erradas, tomando como falsas ou sem propósito, as verdades de cada uma delas, os valores religiosos. Mas o que existe mesmo é uma relatividade em tudo que existe por aí, porque, então, qual delas estaria correta? O que é absoluto seria correto, mas todas se dizem absolutas!

Elas consideram os seus deuses como as suas maiores verdades absolutas. Mas veja que são diferentes:

1 - O deus cristão não é o mesmo que os deuses do hinduísmo Brahma, Vishnu e Shiva;
2 - Alá, o deus do islamismo não é o mesmo que o deus cristão e dos hindus;
3 - O casal de deuses criadores das ilhas japonesas, berço do xintoísmo, a religião oficial do Japão, Izanagi e Izanami, não são os mesmos de todos acima. E assim acontece com todas as outras religiões. Qual deus é o verdadeiro? É relativo, depende de locais, épocas, estruturas sociais, etc., de onde eles foram inventados, mas isto para cada uma das religiões. Um só mesmo não existe...

A predisposição religiosa dos seres humanos é uma predisposição transcendental com sentimentos e emoções. Aliás, este, é um conceito generalizado, entrando na formação de qualquer religião.

Explicarei em duas partes, I e II, uma com conceitos lógicos e outra com os sentimentos e emoções:

I - Temos a capacidade de pensar, elaborar, um ou vários mundos à parte do nosso, ou junto, e que pode ser "habitado" por entes de diversas formas e até sendo amorfos, ou só um ente mesmo, que influi, interage conosco e com tudo. Isto é a transcendência e não significa que acreditamos nesse (s) “mundo (s)”, mas, como temos um cérebro provido de sentimentos, emoções, acreditar, fé, etc., cairemos em II:

II – Para simplificar direi a respeito só a um ente divino. Esse ente considerado como divino, seria responsável por muitos fatos que ocorrem na vida das pessoas, na Terra, no universo, etc., sendo base de todas as crenças, seitas e religiões criadas pelos seres humanos até hoje. O deus cristão é o exemplo mais próximo de nós porque o cristianismo e as suas vertentes é a religião com mais adeptos em nosso mundo ocidental.

Na minha visão do Relativismo Religioso, a existência de sentimentos e emoções, com o acreditar e a fé, não implica que existe (m) ente (s) divino (s), mas sim uma capacidade do nosso cérebro em manter este estado de coisas para ele continuar "funcionando", trabalhando de modo satisfatório. Como digo em meus artigos, temos recursos neuronais possuindo a capacidade de dar margens a muitas crenças para os seres humanos lidarem com questões existenciais, sociais, etc.


E também pelo fato das crenças que conhecemos terem algumas similaridades, dá a impressão que existe o sobrenatural e que nós temos a capacidade de chegar até ele. Mas não, é justamente ao contrário: essas similaridades existem porque a condição humana na Terra sempre fora igual para todos os povos, em todas as épocas e locais: sobreviver. Então inventamos coisas parecidas, mas não iguais: as religiões, que variam de povo para povo. E aqui entram a Teoria da Evolução e a Neurociência.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

As bases do Relativismo Religioso como eu o vejo

O assunto Relativismo Religioso é bem complexo e se faz necessário  algo bem organizado, um esquema com declarações enumeradas, como tópicos, itens, sobre fatos científicos e ideias próprias, para um melhor entendimento do leitor.

Não encontro nada relacionado a ele em sites brasileiros e noto, sem ser pretensioso falta de compreensão por parte até daquelas pessoas acostumadas com os assuntos da neurociência, teoria da evolução e religiões, em conjunto.

Vejo fortes discussões em muitos sites da internet a respeito de dezenas, centenas de argumentos profundos a favor do cristianismo ou outras religiões, junto com as ciências ou não, mas, aqui, não se faz necessário compreender a fundo as crenças e os dogmas das religiões e sim os aspectos básicos de onde se fundamentam. Mas das ciências sim! Note que falo em religiões no plural porque este assunto não diz respeito somente ao cristianismo, como estamos acostumados a ele, porque é predominante em nosso mundo ocidental, mas com todas, com qualquer uma das religiões presentes no mundo todo e em todas as épocas.

Então eu digo:
  
1 – Possuímos a capacidade de abstração e uma das suas propriedades é a transcendência (I), onde conseguimos imaginar que exista um ou mais planos, mundo (s), junto (s) ou afastado (s) de nós, interagindo ou não conosco, embora podemos não acreditar que exista (m).

2 - Nesse (s) mundo (s) conseguimos imaginar, mas não acreditarmos se quisermos, em um ou mais ente (s) divino (s), criador (s) do (s) nosso (s) universo (s) e responsável por essas interações.

3 - Então, para uma pessoa, em termos gerais, de população, ela precisa ter a capacidade da transcendência para depois imaginar algum ou mais entes divinos. Estes três itens pertencem à função racional, lógica, do nosso cérebro, para os argumentos aqui, e, mesmo se houver sentimentos nesses processos, me preocuparei apenas e suficientemente com a racionalidade.

4 - Agora, nossos sentimentos e emoções serviram a nossa sobrevivência como espécie no planeta,  sejam eles individuais ou sociais.

5 - Eles vêm de interações físico-químicas sendo funções, funções orgânicas que produzem sensações.

6 - O acreditar e a fé (II) (A) são sentimentos, servem ao mesmo propósito do item 04, sendo duas sensações relacionadas entre si, possuindo uma diferença sutil entre elas. Uma pessoa pode acreditar em um (s) ente (s) divino (s), mas não ter, ou ter nele (s) pouca fé. A maioria das pessoas acredita e possui muita fé. Outros nem acreditam. Mas nós humanos, no mínimo, acreditamos em nós mesmos. Não fosse assim, nem levantaríamos da cama para lutarmos pelas nossas vidas.

7 - Qualquer ser no universo, dotado de sentimentos, emoções, inteligência e consciência, têm que possuir amor-próprio. Na verdade podemos pensar nele como uma extensão do instinto de sobrevivência dos outros animais, porque serve a um cérebro mais complexo, fazendo com que o ser humano não se destrua. Consciência como em nós humanos e amor-próprio andam juntas, como acredito para qualquer outro ser semelhante a nós.

8 - Então, que tipo de ser no universo, dotado de consciência e amor-próprio, mas sem a transcendência e do acreditar e da fé, não sucumbiria, devido a desequilíbrios emocionais, originados de questões profundas como as perguntas "de onde viemos, para onde vamos como espécie, qual o significado da vida, por que estamos aqui, e, a mais aterrorizante delas: o que existe e para onde vamos após a morte?". Afinal a consciência nos dá esta capacidade de questionamento e o amor-próprio, porque serve a nossa e a qualquer proteção própria, precisarão da transcendência e do acreditar e da fé para atribuir a entes divinos e todas as manifestações e realizações desses, para responder a essas questões e muitas outras, fora do controle de sua vida e da sua volta, em seu meio ambiente social e/ou natural. Não há outra saída...

9 - Mas veja, será então que a nossa mente/cérebro, possuiria a transcendência, o acreditar e a fé apenas como "amortecedores" naturais, nos enganando, pois não há o sobrenatural, para nos sentirmos aliviados de tantas questões cruciais? Acontece que aí  entramos no campo da abstração, sentimentos e da poderosa evolução, onde, acredito, possuem poderes para tanto porque está em jogo a perpetuação da espécie humana na Terra.

10 - Mas o que são em essência, a abstração, a transcendência, o acreditar e a fé, senão interações físico-químicas originados da nossa atividade neural com a liberação ou não de substâncias químicas como hormônios e neurotransmissores?

Conclusão:

De (I) - transcendência e (II) - o acreditar e a fé, temos que qualquer cérebro, consciente de si e com amor-próprio, terá que possuir estas propriedades para sobreviver a despeito de muitos questionamentos importantes, decisivos, que o levaria a ficar doente, comprometendo também a sobrevivência do próprio corpo, que o possui junto a ele.


Assim, em todas as épocas e lugares, seres humanos criaram estórias, inventaram crenças, dogmas, tentaram explicar muitos fatos naturais ou do cotidiano com ideias sobrenaturais, em que o conjunto delas se tornaram seitas e/ou religiões. Veja então que a fé é um sentimento em cima de conceitos abstratos relativos a cada povo, arraigados na mente das pessoas desde quando crianças.


Algumas religiões obtiveram mais adeptos, algumas delas mais adeptos em outras épocas. Mas, a base do que eu escrevo é que todas dizem serem elas absolutas, e as outras, pagãs, erradas.

Na verdade tudo é relativo. Não há religião com verdades absolutas. A única verdade absoluta no ser humano é que essa capacidade de transcendência e do acreditar e ter fé foram selecionadas pela evolução para o sistema nervoso central não entrasse em colapso. O ser humano não sobreviveria, mal deixaria descendentes, etc., com um cérebro defeituoso, confuso e perturbado, com verdadeiros delírios acerca das questões mencionadas no item 08. Ele tem que jogar, colocar nas mãos de ente (s) divino (s), junto com a criação de outros valores religiosos em que acredita com muita fé, para se estabilizar emocionalmente. Sempre foi assim. É uma das faces mais importantes, talvez a mais, da condição humana.


Considerações:


A - Ler "Esclarecimento sobre a fé para os meus artigos" - Neste blog: http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2014/04/esclarecimento-sobre-fe-para-os-meus.html

B - Veja que coloco as palavras "ente", "divino" e "criador" em minúsculas porque faço referência a todos os deuses de todas as religiões, sendo cristãs ou não, monoteístas ou politeístas, etc., pois este artigo é de caráter geral.

C - Não incluo dogmas, conceitos, crenças, etc., de nenhuma religião em particular, pois, repito, sendo este artigo de caráter geral, digo apenas ente (s) divino (s) porque ele (s) é (são) o (s) "centro (s)" de todas elas.

D - (24/06/2013): Faz-se necessário uma observação importante sobre o fato de que a grande maioria das religiões acredita em um ou mais criador (s) do (s) universo (s) a nossa volta e também de nós mesmos.

Será coincidência ou os nossos cérebros foram realmente projetados por um ente divino, ou vários, para acreditarmos no sobrenatural, nesse (s) próprio (s) ente (s)? Existem e existiram muitas crenças e religiões para acreditar nesta segunda questão. Se não, todos os seres humanos em todas as épocas acreditariam em um só ente divino ou em vários deles, especificamente iguais! Quem projeta não faz para confundir.

E sobre a coincidência?

Melhor analisar a condição humana da época em que éramos caçadores-coletores até a formação das primeiras civilizações e entendermos muitos fatos que aconteciam no mundo todo. Coincidência seria simplificar demais.

Os humanos começaram a fabricar utensílios, armas, objetos decorativos, etc., e o faziam com matéria-prima do solo, de galhos de árvores, etc., mas também questionavam certos fatos.

Darei dois exemplos. (A'): uma fôrma de barro para armazenar água. Eles viam que esse objeto, avançadíssimo para a época e muito útil porque facilitava o uso direto da água, vinha de uma lama, de um local no chão, pertencente ao lugar onde estavam e, então, de onde veio esse local e tudo o mais em volta? Alguém fez o objeto. Mas alguém teria criado todo o resto. (B'): uma lança de madeira de um galho de árvore: também útil porque podiam caçar e abater animais grandes com mais facilidade. Mas eles notavam que as árvores cresciam do solo e que embora outras, maiores, parecessem não crescer, estavam fixas no solo. E de onde veio o solo? Tudo cria tudo, tudo provém de tudo e, óbvio, questionavam, todos os locais que conheciam vinham de algo ou alguém que os criara.

E as pedras tão úteis para rasgar couro, pele, carne, colocá-las nas pontas das lanças? Vinham de outras pedras ou do solo. Metais? De rochas com o uso do fogo oriundo do atrito de rochas especiais com folhas secas em que essas folhas eram de árvores e as rochas do solo, do chão.

Faz parte da nossa natureza humana, e isto não é novidade, de sempre perguntarmos de onde veio tal objeto, quem construiu, como, para quê e muitos "etc." a respeito de... Tudo! Quem criou tudo?!

Para mim é completamente natural pensar, supor que o ser humano vivia querendo respostas a respeito de tudo a sua frente, e, algo, era ainda mais perturbador: todas as pessoas vinham de uma mulher... Mesmo antes de saberem da importante parceria do homem para fazer um filho, de onde vinham as mulheres? De outras, que vieram de outras... E os homens vinham de mulheres. Alguém as fez lá no passado. Lógico que quando descobriram o valor do sêmen do homem, ainda ficava a questão: de onde vieram os dois? Alguém ou algo muito maior que eles teria feito, criado. Algo então poderoso, invisível porque realmente não viam nada, talvez criando o mundo também. Ou vários entes realizando cada um a sua obra.

Os caçadores-coletores conheciam as leis da física, da química, da biologia, o DNA, a reprodução, etc.? Então, nada mais coerente pensar que criaram muitas estórias que se tornaram crenças, seitas e religiões.


E - (04/07/3013): Na primeira nota acima eu falo mais sobre a criação, de onde veio tudo que nos cerca e nós mesmos. Claro que religião não é só isto. Qualquer uma delas discorre sobre o bem e o mal e realmente estes dois conceitos são muito importantes, pertencentes as nossas vidas não só individuais como também sociais.

Considero como gosto de fazer, a análise primeira, primordial, ao que se referem estas duas concepções do meio ambiente, natural ou social, influindo em todos os seres vivos incluindo a nós, os humanos, fazendo uma ressalva do também importante estímulo interno como as doenças, defeitos congênitos, etc. Veja, uma substância química tóxica conseguindo vencer a barreira que uma membrana celular impõe, sendo um organismo unicelular ou não, é um mal, da mesma maneira que um assaltante com uma arma apontando a você e querendo a sua carteira. Ambos são estímulos negativos do meio ambiente que os cercam: mudam-se os protagonistas, os meios ambientes, as formas em que o mal age etc., mas a ideia é a mesma.

Então, desde que o primeiro ser vivo apareceu na Terra, há mais ou menos 3,8 bilhões de anos, ele estava na condição ambiental e de si mesmo em receber estímulos negativos e positivos. Foi assim mesmo quando do aparecimento das plantas pluricelulares, animais pluricelulares e até nós. Na verdade somos indivíduos sociais como outros animais e também daí vêm os estímulos positivos ou negativos do meio ambiente social. Nossa condição humana, sempre esteve, a mercê desses estímulos e a evolução agiu em todos os seres com esse fato.

Indo além, se algum (s) ente (s) divino (s) criou (aram) os primeiros homens e mulheres, ele (s) o (s) fez (fizeram), no mínimo, por amor, com carinho e cuidado. Mas aqui entra uma questão difícil de ser solucionada e que as religiões explicaram com muitas ideias diferentes: como colocar homens e mulheres em um mundo com estímulos positivos, mas...  Também negativos? Quem realizaria tal absurdo, com pessoas vivendo suas alegrias, felicidades, mas com muitos sofrimentos devidos a esses estímulos contrários, incluindo aqueles que os levariam à morte? Quem quer morrer? É aí que cada uma delas inventou uma maneira de explicar tamanha contradição.

No Gênese da Bíblia, o principal livro do cristianismo, Deus proibiu o homem e a mulher de comer do fruto da árvore proibida porque, caso contrário, seriam expulsos do paraíso de onde viviam. Eles experimentaram de uma fruta e pronto, eles e todos os descendentes passaram a viver com e sem dores, junto ao Bem e ao Mal em conjunto.

Para mim está clara a tentativa de explicação, a posteriori, de quem escreveu o Gênese, para, a partir de um Deus como a figura do Bem, se entender como as pessoas viviam  e vivem em locais, meios ambientes, muito diferentes de um paraíso...

Carl Sagan e o Relativismo Religioso como eu o vejo

Carl Edward Sagan (09/11/1934 - 20/12/1996) foi astrônomo, astrofísico, antropólogo, biólogo, astrobiólogo e escritor estadunidense, responsável por muitos livros de divulgação científica, talvez o maior deles junto a Isaac Asimov. E ainda contribuiu com as missões espaciais Pioner, Mariner, Viking, Voyager e Galileo, recebendo medalhas condecorativas pela Nasa.

É dele e de alguns colaboradores, nas missões Pioner 10 e 11, respectivamente lançadas em 1972 e 1973, a concepção de uma placa revelando a figura de um homem e de uma mulher, representando a espécie humana com a nossa posição em relação a uma estrela, o Sol, se caso essa pequena nave-robô for interceptada por seres extraterrestres. Hoje a Pioneer 10 está na constelação de Touro, por volta de 12-13 bilhões de km de nós, e as fontes radiativas para emissões eletromagnéticas com informações do cosmo já estão fracas demais para chegarem até aqui.

Em 1977, Sagan ganhou o Prêmio Pulitzer pelo livro "Os Dragões do Éden", uma obra tão avançada que reunia  antropologia, paleoantropologia, evolução, ciências da computação e neurociência para entendermos a evolução do nosso cérebro.

Foi também responsável pela série de TV "Cosmos", baseada em livro de mesmo nome e que se tornou o maior best-seller de divulgação científica pela língua inglesa.

Lecionou em Harvard e na universidade de Cornell. Cético, racionalista por excelência, Carl Sagan se declarou certa vez como agnóstico, e escreveu também sobre ciência e religião relacionadas. 

O livro "Variedade da Experiência Científica" - Uma Visão Pessoal na busca por Deus, é uma edição feita em 2008, pela sua última mulher, Ann Druyan, de nove palestras em que ele participou nas famosas Gifford Lectures - Palestras Gifford -, na Escócia. São encontros onde o tema é a teologia natural, um modo de se estudar a teologia não por experiências ou revelações místicas, mas sim pela razão e a experimentação.

No capítulo seis, "A Hipótese da existência de Deus", ele questiona certos aspectos racionais da existência ou não de Deus e foi aí que eu, ao ler esse capítulo, me deparei com ideias dele que tem a ver com o que escrevo sobre o relativismo religioso.

Então transcrevo abaixo, nas palavras dele, evidentemente, uma pequena parte do capítulo, onde marco frases e faço uma analogia com as minhas exposições sobre o assunto em diversos textos meus. 

“É grande a variedade de coisas em que as pessoas acreditam. Religiões diferentes acreditam em coisas diferentes. É uma caixinha de surpresas de alternativas religiosas¹. E claramente existem mais combinações de alternativas do que religiões, embora existam hoje alguns milhares de religiões no planeta. Na história do mundo, existiram provavelmente dezenas, talvez centenas de milhares, se pensarmos nos ancestrais coletores-caçadores, quando uma comunidade humana típica tinha cerca de cem pessoas. Naquela época havia tantas religiões quantos fossem os bandos de caçadores-coletores, embora as diferenças entre eles provavelmente não fossem tão grandes assim. Mas ninguém sabe, pois, infelizmente, não temos praticamente nenhum conhecimento sobre em que acreditavam nossos ancestrais na maior parte da história da humanidade neste planeta, porque a tradição do boca a boca não é a mais adequada, e a escrita não tinha sido inventada.

Assim, considerando essa variedade de alternativas, uma coisa que me vem à mente é como é impressionante que, quando alguém tem uma experiência religiosa que provoca sua conversão, é sempre para a religião ou para uma das religiões mais comuns em sua própria comunidade. Há tantas possibilidades... Por exemplo, é muito raro no Ocidente que alguém tenha uma experiência religiosa que leve à conversão para uma religião em que a principal divindade tenha cabeça de elefante e seja pintada de azul. Raro mesmo. Mas na Índia existe um deus azul de cabeça de elefante que tem muitos devotos². E não é tão raro assim ver imagens desse deus. Como é possível que a aparição de deuses-elefantes se restrinja à Índia e só aconteça em lugares onde haja forte tradição indiana? Por que as aparições da Virgem Maria são comuns no Ocidente, mas raramente ocorrem em lugares do Oriente onde não há tradição cristã pronunciada? Por que os detalhes da crença religiosa não ultrapassam as barreiras culturais? É difícil de explicar, a menos que os detalhes sejam totalmente determinados pela cultura local e não tenham nada a ver com algo de validade externa.

Em outras palavras, qualquer predisposição preexistente à crença religiosa pode sofrer poderosa influência da cultura local, não importa onde a pessoa tenha crescido. E, especialmente se as crianças forem expostas desde cedo a um conjunto específico de doutrinas, músicas, artes e rituais, a coisa fica tão natural quanto respirar, e é por isso que as religiões se empenham tanto em atrair os muitos jovens"³.

Comentários:
1 - Aqui está algo que todas as pessoas sabem. Mas neste blog, "O Relativismo Religioso - Como Eu o Vejo", (http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br), precisamente no meu artigo "O Relativismo das Religiões e o que Existe por Trás Disto", publicado em 19/03/2007, eu digo, logo nos primeiros quatro parágrafos, de uma circularidade patética se pessoas do Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo, falassem, e sem precisar de detalhes, a cada uma delas de cada vez, sobre como são as crenças básicas de si próprias. Um cristão para um islâmico, deste para um hindu, deste para um budista e este chegando ao cristão. Imagine então se falassem de detalhes como ritos, dogmas e crenças.

O meio ambiente social cristão ensina aos seus filhos no que acreditarem e no que é certo e errado. E assim é com todos de todas as religiões, destas citadas por mim, de outras pelo planeta e aquelas que já não existem mais. Sempre foi assim e sempre será. 

O Deus cristão, o deus islâmico Alá, os muitos deuses do hinduísmo e a concepção mais filosófica do universo segundo o budismo são todos diferentes entre si e cada uma destas religiões julgam serem as suas verdades como absolutas e, as outras, pagãs, erradas. E há uma certa confusão entre o cristianismo e o islamismo, dizendo se tratar de Alá e Deus  como sendo o mesmo. Alá enviou mensagens ao profeta Maomé, através do anjo Gabriel, para que o livro sagrado, o Corão, fosse escrito. Já Deus é Pai de Cristo, sendo este o messias do cristianismo, e, para o Islã, Cristo é apenas um profeta em nível terreno, humano. Não se trata, de jeito nenhum, de um mesmo deus.

2 - Imagine se um cristão, aqui no Ocidente, dissesse que uma divindade aparecera para ele revelando como deveria agir, com a sua vida atual, conturbada por perdas materiais de extrema importância. Imagine então se ele a  descrevesse como sendo uma cabeça de elefante e azul! Vamos ser sinceros? Vamos ser verdadeiros? Seriam somente risadas, não é mesmo? O chamariam de louco, mentiroso ou ridículo. Aliás, todas as ditas aparições de santos, divindades, etc., que ouvimos falar desde as nossas infâncias, são de entidades cujas características são aquelas em que aprendemos em nosso meio ambiente social, ligadas ao cristianismo, ou seja, aparece somente aquilo que aprendemos. 

Aí está um grande exemplo de como as pessoas julgam o que acreditam, pois assim aprendem serem verdades absolutas, mas, se pensarmos melhor, são relativas, são de origens locais, ou, no máximo, que vieram de longe, mas obtiveram adeptos o suficiente para se perpetuarem no meio ambiente social delas.

Eu trato deste assunto em praticamente todos os artigos neste blog.  Tenho até dois, em especial, que se chamam "Neurociência e como se formam os valores religiosos em nosso cérebro" e "O meio ambiente social na formação das crenças religiosas", sem falar no meu texto principal, o início do blog, "Texto Introdutório: as bases de como eu vejo o Relativismo Religioso".

3 - Carl Sagan usa sabiamente a expressão "a coisa fica tão natural quanto respirar" para dizer da influência dos valores religiosos se forem ensinados às crianças, desde muito cedo.

No meu texto "Neurociência e como se formam os valores religiosos em nosso cérebro", eu digo: "Veja os valores religiosos: informações chegam a uma criança, no próprio meio ambiente social, às dezenas, centenas, sempre, como fatos absolutos da religião local e, quando ela as memoriza e passa a senti-las, levando-a a uma ação ao receber um estímulo, elas estarão definitivamente concretizadas em sua mente. Na verdade os valores ficam com a criança como memórias de emoção. No decorrer da vida alguns [desses valores] podem mudar ou não, podem se intensificar, etc.". Até falo em uma maneira natural que acontece com todos nós em nossos meios, mas, imagine então se as crianças também estiverem sob uma educação religiosa com professores, com pessoas capacitadas para o ensino da religião local.  

A força da educação, da cultura local é muito poderosa. Ela atrai, influencia, muda comportamentos, porque ninguém nasce com a religião de sua cultura na cabeça. Não é como, por exemplo, o instinto de sobrevivência, o medo, a agressividade, que são natos. 

Sagan foi muito corajoso em dizer "... é por isso que as religiões se empenham tanto em atrair os muitos jovens". Elas sabem da importância da educação religiosa para as crianças, tanto é que ele fala no trecho: "a coisa fica tão natural quanto respirar". Ou seja, com a cabeça "feita", está "feita" para sempre! Exceções não contam porque são raríssimas. Falo de populações. 


Bibliografia:


SAGAN, Carl. Variedades da experiência científica: uma visão pessoal da busca por Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 171-172.