sexta-feira, 7 de junho de 2013

Consciência, amor-próprio, fé e transcendência

"Proposta: este artigo tem como objetivo explicar cientificamente por que existe o sentimento de fé e por que nós, seres humanos, temos a capacidade, através do nosso cérebro,  de transcendermos a matéria e a energia comuns, em pensamento e imaginação, sem que necessariamente existam entes divinos e/ou espirituais em outro (s) 'plano' (s). Na verdade, conseguimos imaginar que existe outro mundo, outra realidade, além deste nosso mundo físico e onde estariam supostos seres espirituais e/ou sobrenaturais. Mas seria só imaginação."

Todos os nossos sentimentos serviram à evolução para para que a espécie humana não fosse  extinta aqui na Terra. E existe uma base sólida de conhecimentos atuais, da Neurociência com A Teoria da Evolução, para fazer uma afirmação destas. Ver os meus artigos:
 "O Porquê dos Nossos Sentimentos"¹  - ( http://www.cerebromente.org.br/n14/opinion/material3.html ) e "O Porquê dos Nossos Sentimentos - II"² -  ( http://www.cerebromente.org.br/n15/opiniao/sentimentos2.html ).

No reino animal existe o instinto de sobrevivência, o instinto de autopreservação, em que os animais respondem a alguma agressão do meio ambiente ou de outros animais, para sobreviverem. As primeiras formas de vida na Terra, seres unicelulares, por volta de 3,8 bilhões de anos, já apresentavam alguma forma de reação de autopreservação. Por exemplo, ao detectarem uma fonte de calor e se movimentarem no sentido oposto daquele do aumento da temperatura, já era um fator de sobrevivência. A crescente complexidade, no tempo, dos seres vivos, exigia cada vez mais comportamentos complexos para lidarem com meios ambientes novos ou em transformação. E assim fez-se necessário também o aparecimento de um sistema nervoso evolutivo conforme as necessidades e adaptações dos organismos.

Podemos pensar o seguinte: de seres unicelulares até os mais complexos da atualidade, nós, os humanos, a natureza produziu, de simples atos reflexos para reações de sobrevivência, que são comportamentos, até o sistema nervoso mais complexo que existe para dotar-nos da maior variabilidade de comportamentos possíveis para a nossa sobrevivência. Nosso sistema nervoso é portador do órgão mais complexo que existe, com os mecanismos superiores da inteligência, emoções, sentimentos e a consciência: o nosso cérebro.

Nossa variedade de comportamentos através da inteligência, produzida pelo cérebro, nos faz adaptarmos a qualquer ambiente terrestre, porque, inclusive, construímos tecnologia para tanto (no caso de lugares de frio ou calor intensos). E a consciência entra nessa história como uma grande "contribuição" à inteligência porque muito do que pensamos e agimos possui a marca constante do "eu". Como eu disse no blog "Neurociência e Consciência" - www.neuconblog.blogspot.com.br -, "Nós a utilizamos sempre: (eu) farei isto; (eu) não quis realizar tal tarefa; ((eu) preferi fazer outra); (eu) quero ir àquele lugar, etc.".

O neurocientista português António Damásio defende a tese de que a consciência vem de "um sentir", um sentimento, mas de um conhecimento, como eu explico também no blog do parágrafo acima. Em três livros, "O erro de Descartes", "O Mistério da Consciência" e  "E o Cérebro Criou o Homem", Damásio argumenta essa tese baseado em mais de trinta anos de estudos e pesquisas em laboratórios, sendo, atualmente, a maior autoridade no assunto. De qualquer maneira existe algo de racional na consciência porque o sistema, o cérebro, volta-se a si mesmo, reconhece e pensa sobre si e sobre o corpo ao qual pertence.

Mas será que para o cérebro humano, um órgão tão avançado como ele é, produtor de tanta variedade em termos comportamentais, bastariam apenas alguns mecanismos de defesa, de autopreservação, agressividade - que a essa altura já é uma emoção -, por exemplo, para preservar a espécie que o contém? Não. Foi necessário algo muito mais refinado, avançado também: o amor-próprio. Ele seria o ápice de um sistema necessitado de conservação, proteção etc., ou seja, tudo o que é ligado ao corpo e a ele mesmo para sobreviver.

E a fé que falo no título deste blog?

Existe uma confusão muito grande com respeito à fé e às crenças. As pessoas acham só existe a fé se houver crenças, mas alguém pode não possuir crenças e ter fé, fé em si mesmo, no próprio potencial, na vida etc. A fé é um sentimento poderoso porque é o acreditar, o acreditar em nossas possibilidades etc.

As religiões são um conjunto de ideias e crenças, surgidas em um local específico no planeta - uma região, um povo etc. -, e que são ensinadas às crianças desde cedo. Há variações em interpretações das ideias, das próprias crenças com o passar do tempo, há divisões, há expansões para outros povos etc.; e você sabe, seriam necessárias bibliotecas e mais bibliotecas gigantescas para conter tudo o que o ser humano criou neste sentido. Mas algo é certo: os sentimentos das pessoas são "canalizados", por falta de uma palavra melhor, para as crenças das suas religiões locais e essas crenças se tornam verdades absolutas para cada uma das pessoas. Elas passam a ter fé nos entes e nos ensinamentos dessas religiões.

Mas por qual razão surgiram as ideias e crenças de cada povo?

E aqui está o verdadeiro motivo deste artigo. Precisei discorrer sobre amor-próprio, consciência e fé para chegar onde eu queria.

Como um ser inteligente, consciente de si e do mundo a sua volta, e dotado de amor próprio, iria lidar com questões existenciais profundas como: de onde viemos, porque estamos aqui, de onde veio tudo o que vemos e sentimos, e, para onde vamos?

Imagine o seguinte cenário: pré-humanos vendo pré-humanos nascerem e morrerem. Cresciam mas poderiam morrer a qualquer hora. Para onde iriam? O que aconteceria depois?

Que angústia seria acometida a nossa espécie sendo que o próprio amor por si mesmo corroboraria com a não aceitação desse fato? Que conflitos e perturbações internas surgiriam dentro da maquinaria cerebral desses seres? E estou simplificando porque o número de sentimentos e emoções em situações dessas seria muito grande. Acredito que o cérebro não funcionaria direito.

Desde que o cérebro dos pré-humanos se tornou o mais próximo do nosso, ele teria que ter, na combinação de consciência e amor-próprio, a fé e o poder de transcendência, de conseguir abstrair entes divinos, formular crenças, de conceber uma "vida após a morte" etc., com, a propriedade de ter fé neles, de acreditar com uma grande dose de carga emocional. A consciência e o amor-próprio iriam talvez causar um impasse à evolução do nosso cérebro e que fora resolvida com o aparecimento da fé e da transcendência.

Falar em uma moderna Teoria da Evolução é acrescentar também as vantagens que a racionalidade e os sentimentos proporcionaram ao cérebro, a nós humanos. Raciocínio, dedução, indução, estratégia, abstração, lógica etc., no campo da racionalidade, já são difíceis de explicar aos leigos do porquê de suas existências conforme a Teoria da Evolução; imagine então sentimentos e sentimentos profundos como o amor-próprio e a fé.

O biólogo russo Theodosius Dobzhansnky (1900/1975) disse certa vez com muita propriedade, como um dos maiores biólogos do século XX, a frase: “Nada em biologia faz sentido senão sob a luz da evolução”. E o cérebro é uma máquina biológica, um órgão biológico.


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Notas:


2) - in english: “Our feelings. Why do we have them? (II)”




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