sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O surgimento de uma religião como uma necessidade humana

Imagine o seguinte cenário: um grupo de homo sapiens em uma ilha. Essas pessoas podem ser em número de centenas ou mesmo milhares. Eles apenas enxergam poucas ilhas distantes, não sabem o que é um continente  porque nunca estiveram lá, não possuem tecnologia a fabricar barcos e explorarem o oceano a sua volta. Possuem alguns artefatos feitos de barro representando homens, mulheres e animais, vasos de cerâmica, utensílios de bronze mostrando que já dominam o fogo.

Como foram parar lá? Maremotos isolando sua ilha, ou seus antepassados vindos por barco, mas sem deixar registros de como fabricá-los, etc.

O universo para eles é o céu a terra e o mar. Os elementos as plantas, aves e animais. Possuem dificuldades com o meio ambiente: tempestades, escassez de alimentos e água potável, hostilidade de feras, inimigos dentro da própria comunidade etc.

Lutam por sobrevivência, anseiam por épocas melhores, não entendem sobre doenças, talvez algumas plantas aqui e ali para amenizar algum problema de alguém. Inventam palavras para exprimirem o que sentem, o que veem e o que descobrem.

Possuem alguns entretenimentos. Divertem em rios e cachoeiras. À noite se reúnem em volta de fogueiras, talvez já exista alguma forma de música, ritualística ou não, as crianças brincam despreocupadamente, as mães acompanham os homens ou conversam entre si.

Mas todos sabem que, depois de certo período, uma luz irá brilhar, iluminando toda a ilha. Assim, suas lutas recomeçarão, tentando não se abaterem com os estímulos negativos oriundos do meio ambiente. E não só esses estímulos os perturbam. Algo vindo de dentro, devido a um questionamento possibilitado pela inteligência que possuem, os perseguem desde quando começaram a tomar consciência de si, separados do mundo além de seus corpos: de onde vieram, o que fazem lá, e, o pior, o que vem após a morte? Esta última é a mais perturbadora de todas porque mexe com algo absoluto para eles: nenhum escapa. Todo ser vivo, aquilo diferente do mundo mineral, nasce, cresce e morre. As crianças são oriundas do ventre das mulheres e um dia irão morrer como os idosos, inimigos em luta, acidentes, etc.

Alguma saída existe para este conflito emocional oriundo de dilemas existenciais? Porque, no meu modo de ver, um sistema complexo como o cérebro, consciente, teria graves problemas emocionais e não funcionaria direito. Esses nativos estariam comprometidos seriamente com suas vidas, com a perpetuação do grupo na ilha. Mas, como todos os homo sapiens, eles possuem a capacidade de acreditar em si mesmos e em algo sobrenatural. Algo que os protegem, que os motivem a enfrentarem seus obstáculos.

Afora tudo que lhes é palpável, imaginam criaturas poderosas e sentem suas existências. Começam a dar nomes a elas, falam de seus descendentes também poderosos, falam que sentiram suas presenças em situações de perigo às quais sobreviveram.

Para esse povo o cenário da criação começou com o mar, mas alguns mitos referiam-se à terra que pisavam como um fluído, onde os deuses nasciam como plantas, do chão. Várias descendências de deuses ocorreram até que dois deles, um masculino e um feminino, resolveram criar o mundo, precisamente aquelas ilhas. Com um arremesso de uma lança ao mar, houve uma solidificação dos respingos na água dando origem às mesmas.

Esse casal de deuses resolveu ir morar nas ilhas, criando rochas e montanhas, criando outros deuses menores, sendo estes responsáveis pelo aparecimento dos animais e plantas. A natureza estava formada.

O deus feminino veio a falecer ao parir o fogo. Seu esposo foi atrás dela até o país dos mortos querendo que voltasse, mas se perdeu no caminho. Por esta experiência ele se lavou e da limpeza de seu olho esquerdo nasceu a "deusa" Sol. Do outro olho nasceu a deusa Lua e do nariz o deus da tempestade.

Divindades surgiram de outras partes de seu corpo. Uma foi incumbida de governar a noite e, outras duas, o mar e o céu. O governador do mar não fora competente em sua tarefa, sendo afastado dessa tarefa. No exílio conheceu uma jovem, filha de um deus e casaram-se. Deles nasceu uma grande quantidade de divindades e um neto de uma delas foi o bisavô de um imperador, que fundou o primeiro estado... Japonês!

Sim, eu estava todo esse tempo falando simplificadamente do surgimento do xintoísmo, a religião japonesa, reconhecida como tal somente no século sexto. Houve fusão de várias ideias entre o Xintoísmo e o Budismo, influências taoístas e confucionistas, conforme o Japão foi-se desenvolvendo e seu povo entrando em contato com outras civilizações, principalmente da China.

O Xintoísmo fala de duas almas quando um ser humano nasce, uma vinda do céu e outra da Terra. Na morte cada uma delas volta de onde veio sendo que a da Terra será julgada pelo que fez em vida. Sentenciada a servir no inferno, devido às suas falhas, após o cumprimento da pena ela renasce na Terra ou se torna um demônio. Tornam-se espíritos como recompensa aqueles que fizeram o bem em suas vidas. Desses, alguns tornam guardiões de lugares específicos, outros irão guiar seus descendentes e existem aqueles enviados a servirem aos deuses das cidades. Poucos são deificados. Isto se realizarem feitos excepcionais

A religião japonesa foi considerada pelos Estados Unidos e os aliados como uma das principais fontes de inspiração nipônica militar e expansionista durante a segunda guerra mundial. Tanto é que cuidaram de neutralizá-la chegando a proibir qualquer apoio oficial de órgãos públicos a partir de 15 de dezembro de 1945. Claro que não se retira totalmente de um povo uma religião a partir de decretos e apesar de dividir espaço atualmente com o cristianismo, confucionismo, taoísmo e budismo, ela continua sendo a religião com o maior número de adeptos. Isto porque o xintoísmo é a essência do Japão, da sua cultura, como uma religião de berço, indígena, própria, nascido em suas ilhas com tradição milenar.

Daria para acreditar que eu estava falando de um fato nativo como um dos fatores da grandiosidade da cultura e sociedade japonesas, desde os primeiros parágrafos? Claro que alguma elucubração eu fiz quanto do cenário indígena e fatos possíveis acontecendo nesse tipo de sociedade. Mas os deuses existiram e omiti os nomes para não se desconfiar logo de início do que se tratava. Eu pretendi transmitir, com este pequeno texto, que a capacidade humana em crer é absoluta, existe em todos nós, mas as formas das religiões surgidas a partir dela são bem diversificadas. Fiz como exemplo o Japão, uma superpotência, onde as raízes da sua cultura e sociedade podem parecer tolas, ingênuas para muitos de nós! Daí o relativismo das religiões que cito em meu artigo “O Relativismo Religioso e o que existe por trás disto”, neste blog.

O “acreditar” e tudo derivado dele, incluindo a fé, é uma força evolutiva muito poderosa em nós humanos. Ela molda nossas sociedades e nosso modo de vermos o mundo a partir do momento que começamos a criar mitos, regras de conduta social, deuses ou deus.

Podemos ver que as religiões, nascidas dessa nossa capacidade de acreditar e sentir tem muito a ver até com a geografia do local de nascimento. No Japão existem muitos vulcões – montanhas – e os deuses masculino e feminino, respectivamente, Izanagi e Izanami, foram quem criaram as rochas e as montanhas. E também arremessaram as lanças das quais os respingos no mar fizeram surgir ilhas tão comum aos nipônicos. Afinal, o Japão é um conjunto delas.


Notas:


01 - Veja que falo da necessidade do povo nativo daquelas ilhas em compreender tudo ao seu redor, de estarem limitados por água em todos os lados, fatos que, antes do surgimento das embarcações por eles produzidas (ou não), eram realmente muito sério em suas vidas. Suas "terras" seriam inundadas? Havia outros locais mais seguros? Por que estavam fadados a viverem e morrerem somente ali? Para um povo ainda muito ignorante, estas e outras muitas questões que podemos imaginar, eram um verdadeiro pesadelo para eles. Nada como emoções e sentimentos ligados à imaginação para criarem deuses e fatos a deixarem as suas condições humanas mais confortantes...