segunda-feira, 19 de março de 2007

Consciência, genes e nada sobrenatural

O cérebro humano é uma máquina físico-química com aproximadamente cem bilhões de neurônios. Toda essa maquinaria, junto com outros tipos de células, é responsável pelos nossos pensamentos, imaginação, abstrações, sentimentos, emoções, etc., e, o que é também impressionante, nosso caráter e personalidade.

Tudo isso são propriedades emergentes das reações físico-químicas, ou seja, propriedades situando-se em níveis superiores daqueles das reações, mas dependentes destas.

Uma pergunta difícil de ser respondida é aquela onde se questiona se podemos entender, na totalidade, o funcionamento dessa maquinaria. Não precisaríamos de uma mente superior para entendermos uma inferior? Podemos criar circuitos neurais e aproximá-los em propriedades da nossa forma de pensar e sentir.

Uma questão sempre me intrigou com relação às nossas mentes: a consciência; uma propriedade das mais complexas, talvez a maior, de nossos cérebros. O sistema volta a si mesmo e se reconhece. Mais ainda, corrige erros, verifica suas verdades e asserções, sabendo que é de si próprio o que se trata. E o mais extraordinário: a consciência volta a si mesma, sabendo da própria existência.

Nenhuma lei científica consegue explicar esta façanha (embora haja tentativas recentes como, por exemplo, as ideias do neurologista português António Damásio nos livros “O mistério da consciência”, “O livro da consciência” e “E o cérebro criou o homem”), e aí seria um prato cheio para animistas ou criacionistas dizerem de algo sobrenatural guiando nossas mentes ao gerar a consciência.

Não é bem assim. Apesar de não termos leis matemáticas, cibernéticas ou da Teoria de Sistemas elucidando essa questão neural, temos um recurso a nos apoiar: nossos genes.

Eles são a planta de construção de todo nosso corpo incluindo o cérebro. Tudo funciona como funciona porque nossa estrutura, com base nos genes, é do jeito que é.

Eles ainda deixam parte de nossa estrutura cerebral com uma plasticidade intacta a ser moldada pelo meio ambiente durante nosso crescimento. A criança se desenvolve em um mundo diferente daquele dos seus pais. Através de estímulos ambientais ela vai aprendendo a reagir ao mundo externo e seu cérebro vai realizando conexões neurais específicas.

Quer dizer que nascemos com parte de nossa personalidade e caráter formados e parte é moldada pelo meio ambiente. Um grande recurso da evolução porque o ser humano não poderia possuir um cérebro rígido, sem a oportunidade de evoluir com as mudanças ambientais. Não estaríamos aqui hoje!

Então o cérebro funciona do jeito que funciona, com propriedades realizando as mais diversas funções, devido à sua estrutura construída de acordo com os nossos genes.

Não importa se compreenderemos as propriedades cerebrais primeiro com leis científicas ou com a codificação dos genes. Importa é saber que nada vem de algo sobrenatural.


A consciência, talvez a mais complexa propriedade cerebral, vem de uma estrutura, o cérebro, construído com uma planta, nossos genes. Tudo energia e matéria conhecidas por nós.

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