quarta-feira, 23 de maio de 2018

Neuroteologia e fé

Palavras-chave: Andrew Newberg, fé, neurociência, emoções, sentimentos, religião. 

O amor e a fé são os nossos sentimentos mais poderosos. O amor, resumidamente, é quem realiza a ligação entre pais e filhos, filhos e pais, amigos com amigos, entre casais, etc.
  
Quando falo em sentimentos e emoções, gosto de me reportar aos antigos seres humanos no planeta, dos quais somos descendentes. Sem o amor, qualquer mãe e pai abandonaria seu filho na natureza e este, sem maturidade para enfrentar o mundo a sua volta, pereceria por muitos motivos, inclusive pela falta de alimentos. Com os outros mamíferos também é assim. 

Então o amor foi preponderante na sobrevivência do ser humano na Terra e permanece assim até hoje? Sim e até existe uma nova disciplina, a psicologia evolucionista, tratando da evolução do sistema nervoso. 

Mas este artigo é sobre a fé, como o título indica.
  
Veja sua importância com o pai da neuroteologia, Andrew Newberg: "Um teólogo dirá: a fé é essencial para a crença religiosa, mas nossa pesquisa de escaneamento cerebral,  documentada em nosso novo livro, 'Como Deus pode mudar sua mente - um diálogo entre fé e neurociência' (trad. brasileira), (1) nos levou à conclusão de que a fé é a coisa mais importante para uma pessoa manter um cérebro neurologicamente saudável. De fato, acreditamos nela como mais essencial em comparação com o exercício, especialmente à luz da pesquisa cumulativ mostrando como a dúvida e o pessimismo podem encurtar sua vida por anos. Pela fé, queremos dizer a capacidade de conscientemente e repetidamente manter uma visão otimista de um futuro positivo - sobre si mesmo e sobre o mundo. Quando você faz isso - através de meditação, oração ou intensamente focando em um objetivo positivo - você fortalece um circuito único em seu cérebro, melhorando a memória e a cognição, reduz a ansiedade e a depressão e aumenta a consciência social e a empatia em relação aos outros. E não importa se as meditações são religiosas ou seculares." (2) 

É também de Newberg a frase: "Não importa a religião, o importante é praticá-la".
  
Enquanto muitos brigam por religiões, ele, sabiamente, diz ao mundo sobre a prática religiosa, seja de qual for, é benéfica à saúde mental e às relações sociais das pessoas. Enquanto muitos desprezam ou criticam as outras religiões sem ser  as deles, Newberg diz da fé como a coisa mais importante para uma pessoa manter um cérebro neurologicamente saudável. 

Ele sabe muito bem da importância dos valores religiosos de cada religião e da força interna proporcionada pelas práticas religiosas, às quais nada mais são do que se usar esses valores em benefícios próprios. E ainda vai além, fala das meditações seculares como a prática do budismo pois trabalhou com monges budistas em suas experiências, comprovando a tranquilidade, a serenidade e o bem-estar causados por essas meditações. Acrescenta ainda os benefícios em se concentrar em algo positivo, no qual poderá ser uma frase, uma imagem de uma cena positiva acontecendo em sua vida, etc. 

E de onde vem a fé? É um sentimento e a neurociência diria de circuitos neuronais a induzir a produção de substâncias químicas, preenchendo muitas partes de nossos corpos, nos proporcionando uma mistura de sensações prazerosas como a esperança, força interior, conforto, certeza, etc. Por outro lado a influência de algo imaterial como a alma ou um espírito está enraizado em nossa cultura como aquilo no qual nossos sentimentos e emoções são criados. A fé seria acreditar, apostar, sem a presença de evidências, uma certeza sem se precisar ser provada pela ciência. 

Existem e existiram muitas religiões no mundo e os seguidores possuíam e possuem muita fé em seus deuses, sendo o cristianismo monoteísta, com valores como Deus, a Bíblia, orações como o Pai Nosso, etc. Não podemos dizer quem está certo ou errado no meio de tantas religiões com os seus respectivos valores... Outros povos com religiões bem diferentes do cristianismo ajudam os seus seguidores a serem felizes, confiantes em suas vidas, fortalecendo os laços familiares e sociais, enfim, promovendo um bem-estar igualmente em todos eles. Mas isso nos leva a algo desconcertante: como o nosso Deus cristão não nasce conosco em nossos cérebros, com os valores religiosos associados a Ele, temos que ser ensinados desde crianças e assim o é para todas as outras religiões. O cérebro é um hardware zerado no qual os valores religiosos de cada religião local são passados às pessoas desde crianças e estas carregam, com exceções, para toda a vida. Isso explicaria a enorme quantidade de religiões em todo o mundo e aquelas já extintas. Foram "inventadas" mas é assunto para outro artigo. 

E veja, a mesma carga emocional desprendida em uma oração por um japonês xintoísta é a mesma de um bispo católico. De um hinduísta na Índia a um muçulmano na Arábia Saudita! 
  
Algum de nós poderá dizer: acredito nisto e pronto! Até aqui tudo bem, respeitamos, mas as crenças variam muito de povo para povo. 

Deixo então uma questão a ser pensada e/ou discutida: qualquer deus e valor religioso, sejam lá de quais religiões, inclusive a nossa, realmente são "colocados" em nosso cérebro, para assim nos fazermos melhores? 

Talvez uma experiência de Andrew Newberg, ou de outro, poderá um dia responder. 
                                                                                    

Referências: 

1 – Newberg, A.; Waldman, M. Como Deus pode mudar sua mente - um diálogo entre fé e neurociência. 1a. ed. São Paulo: Editora Prumo, 2009. 368 p. 
  
2 - Newberg, A.; Waldman, M. Why your brain needs God. 2018. Disponível em: < https://www.onfaith.co/onfaith/2009/03/27/faith-is-essential-for-your-brain/1746 >. Acesso em: 22/05/2018.

sábado, 7 de abril de 2018

O Relativismo Religioso como fato através das experiências do neurocientista Andrew Newberg

Palavras-chave: neurociência, religião, crença, Andrew Newberg, meditação, relativismo religioso. 

Observação: este artigo é quase totalmente baseado em um anterior meu, de nome "Uma interpretação minha sobre os resultados de algumas experiências de Andrew Newberg" (1). Notei a possibilidade de, através dos resultados e algumas conclusões dele, em experiências com monges budistas tibetanos meditando e freiras católicas orando, sendo os cérebros escaneados, provar o Relativismo Religioso, assunto deste blog, ao qual me dedico desde 2007.  

Introdução.  
Sendo o Relativismo Religioso um fato verdadeiro, então os valores religiosos de cada religião não serão absolutos, ou seja, não existirão na realidade. Deus não existirá? Não. Os deuses das outras religiões também não? Não. Sou cristão católico e cheguei a essas conclusões em ideias colocadas neste blog desde 2007, e foi difícil para mim, após ter possuído uma educação cristã desde a infância como muitos leitores, escrever sobre isto em todo esse tempo. Uma das razões porque escrevi e escrevo é devido a minha sempre vontade de analisar o ser humano como ele é, sua natureza, para depois analisá-lo com respeito às influências do meio ambiente social no qual vive. As experiências de Andrew Newberg com monges budistas e freiras católicas confirmaram minhas expectativas sobre o Relativismo Religioso.

:::::: 

O relativismo religioso é o fato da pessoa acreditar na própria religião e nos seus valores religiosos como absolutos, corretos em relação às outras, sendo essas outras religiões também crentes no mesmo fato, ou seja, na realidade são relativos. Simplificando, cada religião se acha a correta. A enumeração subsequente está relacionada com os artigos escritos por mim neste blog, com exceção dos itens (1), (4), (6) e (7), servindo ao leitor como leitura complementar para entender as minhas posições

Existe somente de absoluto no ser humano, desde quando nasce, a capacidade de acreditar, possuir fé, mas, em quê? Naquilo posteriormente ensinados como valores religiosos em seu meio ambiente social. Para cada povo, em todo lugar e época, criaram-se valores religiosos e passaram de pai para filho ensinamentos nos quais eram absolutos para eles. (2) 
  
Valores religiosos (3) podem ser, e são, muito diferentes entre si, como, por exemplo, Ganesha, o deus hindu com corpo de homem e cabeça de elefante, o qual os hindus o reverenciam e muito pois além de ser o deus da remoção de obstáculos, em qualquer tarefa ou trabalho, é aquele onde se reza para a prosperidade material. Muitos outros atributos lhe são atribuídos e seria cansativo ao leitor eu colocá-los aqui. Basta essa breve descrição para notarmos o quanto existem de diferenças entre as religiões: compare com o cristianismo. 

Já o budistas acreditam em uma interdependência entre todas as coisas no Universo (4) e esse conceito é de grande valor para eles, ou seja, não só os valores religiosos podem ser benéficos a quem os praticam, mas também valores relacionados a outros conceitos construídos através do tempo por muitas civilizações.
         
O meio ambiente social é tudo aquilo envolvendo o desenvolvimento de uma criança, os pais, amigos, parentes, escola, etc. A religião faz parte e desde muito cedo, além de ensinamentos pelas pessoas, ela irá se deparar com inúmeras situações em que os valores religiosos serão mencionados, reforçados e cobrados por outras pessoas. (5) Por exemplo, ao desdenhar da oração Pai Nosso do cristianismo, a ser pronunciado em classe, um colega poderá dizer: "Isso é pecado. Fica quieto se não quiser orar". 

As práticas religiosas ou praticar aquilo nos dado como valores religiosos, como orar, entoar cantos, etc., são atividades mexendo com o nosso psicológico   porque os valores estão em nossas memórias e carregam consigo uma grande carga de emoções e sentimentos devido, principalmente ao mencionado antes por mim, sobre tantos anos de educação religiosa. 

Imagine então você podendo visualizar a atividade cerebral de uma pessoa durante uma oração, ou várias, se concentrando nos próprios valores religiosos. Depois você analisa a atividade do cérebro de outra, mas de uma religião diferente ou crenças diferentes. Seria razoável supor, dependendo dos estados mentais nos quais essas pessoas chegariam, o fato de interpretarem como sinais, evidências e até realidades sobre suas crenças? Bem, pelo menos elas não diriam nada a respeito dos valores religiosos das outras religiões. 

E aconteceu com monges budistas tibetanos e freiras como é descrito no seguinte relato das experiências de Newberg: "...Quando os cientistas estudaram as varreduras, sua atenção foi atraída para um pedaço do lóbulo parietal esquerdo do cérebro que eles chamaram de área de associação de orientação. Esta região é responsável por desenhar a linha entre o eu físico e o resto da existência, uma tarefa que requer um fluxo constante de informações neurais que fluem dos sentidos. O que as varreduras revelaram, no entanto, foi que nos momentos de pico de oração e meditação, o fluxo foi dramaticamente reduzido." (6) 

Os budistas se sentiram em comunhão com o meio circundante e fazendo parte desse meio sem separação... 
   
As feiras se sentiram em comunhão, em união com Deus...  Uma delas disse: "Isto faz muito sentido para mim. Agora eu entendo o impacto que Deus tem no meu cérebro". (7)

E aqui está o ponto principal deste artigo: as sensações foram as mesmas para todos eles mas as interpretações tomaram rumos diferentes, cada qual de acordo com os próprios valores! Cada grupo buscou em muitos pontos diferentes de seus cérebros, as memórias daquilo aprendido desde muito jovens como sendo seus valores absolutos. 

Se Deus fosse absoluto, a Verdade Absoluta,  por que ele não apareceria nos comentários dos budistas? E por que as freiras pensaram no Deus cristão sem citar nenhum outro valor religioso de outra religião? 

Cheguei a essas conclusões desde 2007, soube das experiências de Newberg mais tarde mas não com detalhes, e, confesso, fiquei pasmo ao traduzir a página de pesquisa dele na internet, (8) notando muitas semelhanças com as minhas ideias. 

Como eu disse na "Introdução", não foi fácil para eu escrever sobre o RR até hoje, mas agora estou satisfeito porque tenho uma base experimental a me apoiar.   


Material complementar de leitura: 

1 – Argos Arruda Pinto. Uma interpretação minha sobre os resultados de algumas experiências de Andrew Newberg. 2018. Disponível em: < http://argosarrudapinto.blogspot.com.br/2018/03/uma-interpretacao-minha-sobre-os.html >. Acesso em: 05/04/2018. 

2 – Argos Arruda Pinto. O acreditar e a fé como vantagens evolutivas. 2008. Disponível em: < http://finalizacaoargos.blogspot.com.br/2008/02/o-acreditar-e-f-como-vantagens.html >. Acesso em: 05/04/2018. 

3 - Argos Arruda Pinto. Neurociência e como se formam os valores religiosos em nossos cérebros. 2017. Disponível em: < http://argosarrudapinto.blogspot.com.br/2017/02/neurociencia-e-como-se-formam-os.html >. Acesso em: 05/04/2018. 

4 - Budismo. Nova Enciclopédia Ilustrada Folha. São Paulo. Editora Folha de São Paulo. 1996. 2 v. 

5 - Argos Arruda Pinto. O meio ambiente social na formação das crenças religiosas. 2013. Disponível em: < http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/2013/03/o-meio-ambiente-social-na-formacao-das.html >. Acesso em: 05/04/2018. 

6 - Mundo da Psicologia. O que faz a oração? O que o amor faz? 2017. Disponível em: < http://pt.psy.co/o-que-faz-a-orao-o-que-o-amor-faz.html >. Acesso em: 05/04/2018.

7 - Nério Júnior. O Cérebro e a religião. 2013. Disponível em: < http://www.neriojunior.com.br/2013/06/o-cerebro-e-religiao.html?m=0 >. Acesso em: 26/04/2018. 
  
8 – Andrew Newberg. Research Questions. 2018. Disponível em: < http://andrewnewberg.com/research >. Acesso em: 06/04/2018.